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Método · Trilha

Pesquisada ou composta

As duas maneiras de colocar música num filme, o que cada uma cobra de quem escolhe e quando cada uma é a certa.

Método4 min de leitura
Hearing Film, de Anahid Kassabian, a referência que separa trilha pesquisada de trilha composta
Hearing Film (Routledge, 2001): a distinção tem nome acadêmico.

Todo filme com música passou por essa decisão, mesmo quando ninguém a nomeou. Ou a música já existia e foi escolhida, ou não existia e foi escrita. A bifurcação é essa. O que muda é quem paga, quanto tempo leva e quanto do filme a música sustenta.

01 Pesquisada: música que já existe

A trilha pesquisada é uma música que já existe, escolhida para o filme. Ela pode ser famosa. A Canção de Ninar de Brahms numa campanha de colchões da IKEA é trilha pesquisada: a peça já estava no ouvido de todo mundo, e a campanha tomou emprestado.

A conta vem colada na fama. Música com direitos autorais se paga, e o valor come orçamento. Não é custo escondido, é custo negociado. Ele precisa estar na mesa antes de o filme ser montado em cima dela.

02 Por que uma música conhecida gruda

A razão não é mística. Ela tem nome na literatura acadêmica. A musicóloga Anahid Kassabian, em Hearing Film (Routledge, 2001), separa as duas famílias: a trilha compilada, montada com música pré-existente, e a composta, escrita para o filme.

O ponto dela é o que cada uma faz com quem assiste. A música pré-existente abre a porta para as identificações afiliativas: o espectador chega com a própria história naquela canção. Parte da emoção é dele, não do filme. A trilha escrita para o filme tende ao inverso: ela conduz o espectador para onde o filme o quer.

Kassabian é cuidadosa aqui, e a ressalva fica: a ligação é importante, não é absoluta. Pesquisada também conduz. Composta também deixa espaço. O que a distinção dá é uma pergunta para fazer antes de escolher: em qual memória a cena vai se apoiar?

O cinema brasileiro tem um exemplo fácil de ouvir. Em Ainda Estou Aqui, as músicas pré-existentes fazem boa parte do trabalho emocional. "Take Me Back to Piauí" é o caso mais claro.

A pesquisada empresta uma memória que já existe. A composta constrói uma que ainda não existe.

03 Nem toda pesquisada é famosa

Trilha pesquisada não precisa ser sucesso. Ela pode sair de um site de bibliotecas de músicas, o Artlist entre eles, licenciada por assinatura. O custo cai. A liberação deixa de ser negociação.

O que se troca muda de lugar. Essa mesma música pode já ter tocado em outra propaganda, às vezes na sua categoria. Você aluga algo que não é exclusivo, e exclusividade é o que se abriu mão para ganhar velocidade.

Velocidade é motivo de verdade. Prazo curto, aprovação ainda rodando, peça que precisa de música agora: a pesquisada é a escolha certa, não a menor.

04 Composta: música feita sob medida

A trilha composta nasce do projeto. Isso muda o que se pode decidir. O arranjo é escolhido por inteiro: quais instrumentos entram, como entram e em que ponto do filme entram. Nada disso é herdado de uma gravação pronta.

A dinâmica acompanha o corte. A música se ajusta ao vídeo ou ao spot e segue cada mudança de mood. Ela sinca com a locução, em vez de correr por baixo dela.

E ela é movida por feedback. A composição roda como conversa entre a produtora de áudio, a de vídeo, a agência e o cliente. É isso que deixa ouvir o que funciona e ajustar enquanto ainda dá tempo. Foi assim num projeto recente da Itaipu, decidido em trocas internas e não numa entrega única.

Pesquisada
  • Música que já existe, escolhida para o filme
  • Música famosa: direitos autorais a liberar, e pode ser caro
  • Música de biblioteca: mais barata, mas não exclusiva
  • Fica pronta rápido, o que decide quando o prazo é curto
  • Se apoia numa memória que o público já tem
Composta
  • Música escrita para este projeto e nenhum outro
  • Arranjo escolhido por inteiro: quais instrumentos, como e onde
  • Dinâmica ajustada ao corte, ao mood e à locução
  • Movida por feedback ao longo do processo
  • Exclusiva, e só serve ao filme de que nasceu

05 Como escolher

A pergunta útil não é qual das duas é melhor. É o que a peça precisa fazer. Se o valor está no repertório que o público já carrega e o calendário aperta, a pesquisada é a resposta honesta: a conversa de orçamento migra para a liberação de direitos. Se a música tem que sustentar o corte, acompanhar a locução e mudar junto com o filme, é a composta. Ela vale o tempo que pede.

Aqui a gente trabalha com as duas. O que não fazemos é deixar a escolha acontecer por inércia, descoberta quando o filme já está montado. Fale com a gente sobre trilha para o seu projeto antes de o corte fechar.

Referência: Anahid Kassabian, Hearing Film: Tracking Identifications in Contemporary Hollywood Film Music (Nova York: Routledge, 2001). Kassabian ocupou a cátedra James and Constance Alsop de música na University of Liverpool.